domingo, 5 de agosto de 2012

Moscas também tem consciência, segundo neurocientistas


Aquele olhar enigmático do gato, aquela ação inesperada do cão ou aquele passarinho que atrai o peixe com pão. Como são espertos!, você pensa. Os cientistas não pareciam concordar. Até o dia 7 de julho, quando neurocientistas se reuniram para assinar um manifesto na Universidade de Cambridge, na Inglaterra: “As evidências apontam que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência”, concluíram. O nível dessa consciência presumida, no entanto, é desconhecido.
“Quando nós dizemos que ‘são conscientes’, normalmente se pensa em ‘consciente como um humano’. É claro que eles não são conscientes como o ser humano”, enfatiza Bruno Van Swinderen, professor do Brain Institute, da Universidade de Queensland, Austrália. “Uma vaca tem uma memória de vaca, e nenhum histórico de entendimento do motivo de ela ser levada de um lado para o outro no pasto e ser alimentada. Mas a vaca tem uma consciência, que pode envolver mecanismos que levam à consciência humana, apenas menos complexos e sem o histórico humano”.
O manifesto publicado em Cambridge – e assinado por cientistas renomados, com apoio do físico Stephen Hawking – não aponta grau de consciência, mas se encarrega de indicar alguns dos animais que possuem as faculdades neurológicas geradoras de consciência: “Todos os mamíferos e pássaros, e muitos outros, incluindo os polvos”. Esses são, portanto, alguns dos principais alvos dos estudos de consciência.
David B. Edelman, pesquisador da área de neurobiologia experimental do Instituto de Neurociências, em San Diego, argumenta que, até pouco tempo atrás, grande parte da neurociência tinha se mantido cética sobre essa questão. “Agora, com o acúmulo de evidências que sugerem estados conscientes em primatas, além das aves e papagaios, particularmente o trabalho de Irene Pepperberg com estes, os neurocientistas estão mais dispostos a envolver a questão da consciência em animais não humanos”, justifica.
O que é consciência
Apesar do manifesto, ainda não há um consenso sobre a definição de consciência entre os pesquisadores. A maioria dos animais tem sistemas de memória e mecanismos de atenção, e a interação entre esses dois processos cresce em complexidade, de moscas a humanos. Conforme Swinderen, alguns neurocientistas utilizam medidas dessa complexidade para sugerir estados conscientes, como Giulio Tononi e sua medida “Phi”, uma variável quantitativa.
Edelman, entretanto, não tem uma opinião quantitativa sobre a consciência. “Meu ponto de partida é a premissa de que a forma mais básica de consciência envolve, primeiramente, a conexão de estímulos sensoriais para a produção de uma coerente e unificada percepção e, segundo, a retenção dessa percepção na memória, mesmo que de forma fugaz”, explica.
Consciência no espelho
Distinta da medida quantitativa de Giulio Tononi, a indicação de consciência mais comum é a consciência de si mesmo. Assim como Swinderen e Edelman, a pesquisadora e professora de psicologia da Hunter College, nos Estados Unidos, Diana Reiss, também assinou o manifesto. Ela investiga as habilidades cognitivas de golfinhos e elefantes, analisando de que forma eles respondem a um espelho. Diana estuda o índice de consciência medido pela maneira como os indivíduos respondem a seu reflexo. “Eles entendem a representação externa de si mesmos?”, questiona a pesquisadora. Os seres humanos, macacos, golfinhos, elefantes e pombos mostram esse tipo de autoconsciência, segundo ela.
Humanos x não humanos
Para medir a similaridade entre a consciência dos animais e dos seres humanos, Swinderen explica que, além dos testes de autoconsciência, como o do espelho, tudo o que se pode fazer atualmente é estudar processos como a atenção e a aprendizagem e gravar a atividade cerebral correlacionada. “Um problema com a aprendizagem é que você pode treinar um animal para fazer muitas coisas que façam ele parecer consciente, mas que sempre pode ser explicada como uma série de reflexos”, relata o pesquisador.
Atenção seletiva, sono e anestesia geral em humanos são alguns dos estudos que colaboram para a compreensão da consciência. Swinderen, que trabalha com neurociência comportamental, se utiliza desses mesmos estados comportamentais, com foco no modelo de organismo da mosca-da-fruta, aDrosophila melanogaster, para estudar sua percepção. “Meu interesse é na verdade sobre como o cérebro suprime a percepção, por exemplo, durante o sono, mas também atenção seletiva e através da ação dos anestésicos gerais”, esclarece.
Até a mosca?
Não dá nem para limitar o universo de animais conscientes. Pelo critério mais clássico, de autoconsciência, conscientes seriam os mamíferos maiores, como golfinhos, macacos e elefantes, de acordo com Swinderen. Analisando medidas de complexidade como o “Phi”, contudo, até mesmo uma mosca poderia ser considerada. “Os cientistas ainda estão no escuro sobre esse assunto. Nós precisamos entender antes o trabalho de atenção e memória antes de imaginar como esses processos podem interagir para construir uma criatura consciente ao longo do tempo”, argumenta.
Para Edelman, o “clube da consciência” nos animais não é tão exclusivo quanto se pensava. Segundo sua própria visão de consciência, o pesquisador acha perfeitamente concebível que animais distantes dos vertebrados, como os moluscos cefalópodes, particularmente o polvo, possuam estados conscientes. “Eu arriscaria dizer que todos os mamíferos e a maioria, se não todas, as aves, experienciam estados de consciência”. Evidências comportamentais para apoiar a afirmativa existem, conforme o cientista.
O polvo
Edelman estuda o cérebro e o comportamento do polvo, com foco específico na visão dos moluscos cefalópodes. “Meu laboratório investiga as propriedades mais importantes da percepção visual do polvo, para que, algum dia, possamos combinar nossos estudos psicofísicos da visão do polvo com técnicas eletrofisiológicas que nos permitam identificar determinados correlatos neurofisiológicos da visão deste moluscos”, elucida o pesquisador.
Segundo ele, a partir de perspectivas neurofisiológicas e neuroanatômicas, é difícil argumentar que os polvos têm alguma forma de consciência. Não que isso não possa ser sugerido, mas não existem ainda dados suficientes para permitir comparações com os mamíferos ou com os vertebrados, por exemplo.
Debate ético
Mais do que corroborar uma visão científica, o manifesto pode promover um debate acerca dos direitos dos animais. “A declaração é um reconhecimento, em primeiro lugar, de que os seres humanos não detêm o monopólio da consciência e, em segundo, que há um corpo razoável de evidências científicas que sustentam estados conscientes em uma variedade de animais não humanos, incluindo, não de forma limitada, mamíferos e aves”, afirma Edelman.
A noção de que os animais possuem consciência pode ser desconfortável, dependendo dos hábitos alimentares do indivíduo. Se os animais têm consciência, eles também sofrem. “É difícil tornar o animal um objeto se evidências apontam que aquele animal está consciente de seu mundo – e, mais ainda, de que aquele animal está consciente de estar consciente. Autoconsciência em uma possível forma de presença subjetiva em animais não humanos deveria necessariamente impor um maior carinho e cuidado com o bem-estar dos animais não humanos”, acrescenta.
Confira a declaração da conferência, em inglês, de que os animais têm consciência.
Fonte: Terra

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