terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

PROTETOR X COLECIONADOR


A maior dor dos protetores de animais é o sentimento de impotência. Diariamente se deparam com cães e gatos nas ruas sem poder ajudá-los ou ter para onde levá-los. Nunca se falou tanto sobre o tema “animais”. Eles são assunto nas redes sociais, nos meios de comunicação e no dia a dia dos cidadãos. Por outro lado, quanto mais falamos sobre isso, mais nos deparamos com uma realidade devastadora.
Dr. Aristides Cordioli
Quando uma dezena de animais vive num ambiente limpo com água fresca e comida, é castrado e doado, estamos falando de um verdadeiro protetor de animais. Mas quando passa fome, sede e dorme nos próprios dejetos, trata-se de uma doença psiquiátrica bem séria, e o responsável, por não dispor de meios de oferecer abrigagem em boas condições, é conhecido como “colecionador de animais”.

O colecionador é aquele que, na tentativa de amparar animais abandonados, abriga mais do que as condições permitem e eles acabam doentes e muitos vêm a óbito. A pessoa acaba prejudicando a si mesmo e não percebe a situação-problema em que vive. Ela também evita esterilizar os animais e sempre arruma desculpas para mantê-los quando surge um doador em potencial. A doença já é reconhecida internacionalmente e é frequentemente associada a Transtornos Obsessivo-Compulsivos (TOC), depressão e ansiedade social.

De acordo com o médico psiquiatra e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Aristides Volpato Cordioli, o transtorno do colecionamento de animais é um estágio avançado do TOC, uma enfermidade crônica do cérebro onde a pessoa se encontra ligada a atos que não provêm de sua razão ou emoção e que sua vontade não pode interromper. “O portador desta patologia tem uma grande dificuldade de tomar decisões racionais e de cuidar de si próprio, até mesmo em relação ao básico. Também não consegue lidar com situações que não possam controlar. E uma pessoa que não se considera doente, não procura ajuda e é de difícil tratamento”, explica Cordioli.
Em quatro décadas dedicadas à ciência, Aristides Cordioli lidou com diversos casos ligados ao colecionismo de animais. Segundo ele, cada caso é único e deve ter abordagem diferente. O doente é identificado quando apresenta um vínculo excessivo com seus animais, mas não consegue dizer "não" a colocar mais um animal em casa, por mais que esteja superlotada ou que o cão ou gato esteja muito doente. “Ele acha que o bicho estará bem com ele, melhor do que em qualquer outro lugar e nega que seus animais estejam em condições precárias de saúde”, revela o psiquiatra.
Apesar de estudos indicarem difícil tratamento, Cordioli conseguiu obter avanços significativos com alguns de seus pacientes. Ele tratou de uma senhora muito humilde que chegou a abrigar 30 animais, entre cães e gatos. “Era uma pessoa que tinha um sentimento de culpa por qualquer animal que via na rua e o recolhia. Com a aceitação do tratamento, passou a entender a necessidade de parar com o acúmulo de animais, resgatou a importância dos cuidados com a higiene e deu a maioria deles para adoção”, conta o médico.
Normalmente, os colecionadores de animais demoram anos até serem descobertos, e, quando isso ocorre, muitos dos animais não podem ser salvos. Estudos mostram que a maioria deles morre em decorrência das condições em que estavam sendo criados. Por isso, torna-se necessário a colaboração de amigos e familiares desses doentes.
Quando a situação foge do controle, causando sofrimento e comprometendo a saúde física e psicológica de pessoas próximas, a busca de ajuda profissional é a melhor forma de salvar os doentes e os animais em situação de risco.
Como ajudar um colecionador de animais
A Secretaria Especial dos Direitos Animais (SEDA) reuniu algumas informações do Dr. Aristides Cordioli que podem servir como apoio para uma ação de ajuda a acumuladores:
 
·         Antes de tudo é preciso ter certeza de que se trata realmente de um colecionador compulsivo. Nem sempre um número alto de animais é sinal deste comportamento, mas cães e gatos apáticos, magros e com forte cheiro de urina e fezes são alguns dos principais sinalizadores de que algo está errado. Os vizinhos podem ser uma boa fonte de informação;
·         O mais recomendável é formar uma equipe de ação em que alguns dos integrantes sejam próximos ao indivíduo. Um dos maiores desafios para amparar uma pessoa nessa situação é fazer com que ela mesma aceite auxílio. O primeiro contato deve ser sempre um oferecimento de ajuda. Importante lembrar de estar sempre simpático para com a vítima do transtorno ou ela pode deixar de colaborar. Enquanto, do seu ponto de vista, a pessoa está causando sofrimento aos animais, a visão dela é de que está salvando vidas;
·         Para dar os cuidados necessários aos animais, como passeios, melhoras no ambiente e tratamento veterinário, é importante ganhar a confiança do indivíduo e dar garantias de que eles não terão nenhum tipo de sofrimento. Num segundo momento, com bastante conversa e uma relação mais próxima, pode-se começar a tocar na ideia de doar alguns animais. É preciso convencê-los a não pegar mais animais. Saber dizer “não” é essencial neste momento de recuperação;
·         Buscar organizar nas comunidades grupos de discussão sobre os chamados colecionadores de animais. A partir daí, fazer campanhas de conscientização e cobrar do poder público políticas de fiscalização e tratamento para colecionadores de animais que não têm condições de custear o atendimento psiquiátrico particular.

**Aristides Cordioli é psiquiatra, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e especialista em TOC

Fonte: Informativo SEDA de 04/02/2013

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