quarta-feira, 30 de outubro de 2013

"Resgate de beagles é demanda social", diz biólogo que processou universidade

“No começo, eu não queria aplicar uma injeção de suplemento de ferro em um leitão de 3 dias, mas em pouco tempo já castrava 30 deles diariamente sem me incomodar.” A recordação é do hoje biólogo Róber Bachinski, de 27 anos, que aos 15 cortava com naturalidade bicos de galinha, rabos de porcos, extraia dentes de ovelha e castrava leitões sem anestesia em um curso técnico de zootecnia.
Ao ingressar na faculdade, Bachinski identificou a mesma frieza de comportamento em alguns colegas de classe. Foi então que decidiu pedir à faculdade que lhe apresentasse alternativas de estudo ao uso de animais em algumas disciplinas. Com a recusa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele foi à Justiça e ganhou o direito de não dissecar animais vivos em sala de aula.
Hoje doutorando no Centro de Alternativas aos Testes em Animais na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, o biólogo assegura que seus estudos não saíram prejudicados. “Muitas universidades dos Estados Unidos e Europa já baniram as aulas com uso de animais.”
O gaúcho acha que a banalização da vida nas universidades forma médicos e biólogos insensíveis. “A insensibilidade é condenada contra o homem, mas tolerada quando se trata de animais.”
Leia a entrevista completa:
iG – Quando você decidiu que não queria dissecar animais vivos na faculdade?
Róber Bachinski – Primeiro, em 2006, pedi aos professores que me oferecessem opções de estudo à dissecação de animais vivos. Como não atenderam minha solicitação, entrei com um processo dentro da própria universidade que se chama Objeção de Consciência, um direito estabelecido na Segunda Guerra Mundial. Naquele período, os cidadãos contrários à guerra pediam dispensa do alistamento para não participar do conflito. O mesmo artifício pode ser utilizado contra alguma ação que fira os princípios morais de alguém. No meu caso, o uso de animais.
iG – E como a UFRGS recebeu o seu pedido?
Bachinski – A universidade interpretou que a concessão feria a autonomia da universidade e do professor. Então, fui à Justiça com um mandado de segurança.
iG – Você venceu em primeira instância, mas perdeu em segunda.
Bachinski – A liminar durou todo o período em que precisei estudar essas disciplinas, por isso não precisei dissecar animais vivos. No lugar, os professores me ofereceram trabalhos teóricos porque na época a falta de discussão sobre o tema limitava outras formas de ensino. Como a decisão só caiu em 2010, quando eu já cursava o mestrado, não recorri da decisão. O processo já havia assegurado o meu direito.
iG – O seu aprendizado não foi comprometido?
Bachinski – Certamente não. Os professores me apresentaram métodos alternativos. Na época, alguns professores passavam a ideia de que a substituição aos animais vivos se resumia a testes e perguntas teóricas. Esse mal entendido assustou meus colegas de classe, que ficaram com medo de voltar para uma aula tradicional no quadro-negro. Hoje temos muitas alternativas ao uso de animais, como simuladores 3D. Muitas universidades dos Estados Unidos e Europa já baniram as aulas com uso de animais.
iG – Como essa polêmica interferiu em sua relação com os professores e a universidade?
Bachinski – Os alunos podem ajudar os professores a atualizar suas técnicas, mas eles permanecem fechados às mudanças. A universidade deveria ser o ambiente ideal para despertar novas ideias e ampliar horizontes, mas acaba se tornando um lugar para poda de alunos. Alguns professores não sabem como reagir às novas demandas da sociedade e se sentem confrontados em vez de reavaliar métodos para atender às necessidades dos estudantes.
iG – Antes do curso, você precisou dissecar animais vivos?
Bachinski – Quando eu tinha de 14 para 15 anos, fiz um curso técnico em zootecnia. Aprendi a cortar orelhas de porcos e ovelhas, extrair dentes e rabos de porcos, castrar (sem anestesia, claro) leitões, porcos e ovelhas, cortar bicos de galinhas. Como era muito jovem acabei cedendo por pressão dos colegas e professores. Depois da primeira vez, me acostumei com essas práticas, mas esse "acostumar" com o sofrimento alheio acaba tirando a sensibilidade do aluno.
iG – Como ocorre esse processo?
Bachinski – A insensibilidade é condenada contra o homem, mas tolerada quando se trata de animais. No começo, eu não queria aplicar uma injeção de suplemento de ferro em um leitão com três dias de vida, mas em pouco tempo já castrava 30 leitões diariamente sem me incomodar. Quando identifiquei esse comportamento em diversos colegas da graduação, decidi me posicionar contra esses métodos.
iG – Agora formado, o que você acha da dissecação de animais em pesquisas científicas? Ela também deveria ser abolida?
Bachinski – Para o ramo dos cosméticos não é mais necessário usar animais. Tanto a União Européia quanto a Índia já proibiram. A Humane Society International enviou recentemente um relatório ao Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (Concea) solicitando a proibição do uso de animais para testes de cosméticos no Brasil. Essa proibição pode aumentar a competitividade das empresas brasileiras em mercados onde essa comercialização já é proibida. Aqui nos Estados Unidos há um projeto financiado pelo National Institute of Health que pretende desenvolver modelos 3D de órgãos utilizando células-tronco extraídas do homem com uma simples biopsia. A intenção é formar diferentes órgãos com a base genética do doador para assim montar um sistema de interação entre esses órgãos. Isso tudo significa que o conhecimento sobre a biologia celular está muito avançado, tornando desnecessário o uso de animais.
iG – O que você achou do recente resgate de beagles em um laboratório no interior de São Paulo?
Bachinski – Essa invasão do prédio e resgate dos beagles representa uma demanda social. São os pesquisadores que devem responder às necessidades da sociedade e não o contrário. Se o uso de animais para testes agora é um problema, nós, pesquisadores, devemos encontrar uma solução ao invés de esperar que a sociedade esqueça o assunto ou "mude de pauta". Por que ignoramos o direito animal de não sofrer? É apenas por ser de outra espécie? Não me refiro apenas aos beagles, mas também aos coelhos, porcos-da-índia, vacas, galinhas, porcos, ratos e todos os animais capazes de sofrer e com todo o direito de permanecer no meio ambiente a que pertencem. As pessoas acham razoável criticar a violência e defender o laboratório com o argumento do mal-necessário ou da lei, mas se nós imaginarmos no início do século 19, utilizaríamos os mesmos argumentos para criticar a libertação de escravos humanos.

Fonte: Ig

Um comentário:

  1. Nossa, adorei a entrevista! E achei que ele encerrou com chave de ouro a comparar os testes com a libertação dos escravos. A violência é sempre tolerada quando não afeta a nós. A partir do momento em que somos envolvidos nessa violência, passamos a agir contra porque fere nossos direitos. É muito fácil aceitar porque se trata de outra espécie. Seguindo esse princípio, muitas pessoas também achariam aceitável fazer testes no filho do vizinho a fim de salvar a vida do seu próprio filho, e daí por diante.

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