quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Como organizar uma campanha de castração

Muitas pessoas têm solicitado, através do OLHAR ANIMAL, sugestões de como planejar e executar uma campanha de castração de cães e gatos. As sugestões a seguir podem ser úteis e obviamente não é uma questão matemática, ou seja, muitas serão as variantes a serem consideradas. A castração é um procedimento técnico que envolve um alto grau de responsabilidade por quem executa o procedimento e por quem o organiza. Quanto maior o planejamento maior será o sucesso e menores serão os problemas.

1. Sobre o local da ação

As castrações em massa ou processos de castração contínua geralmente ocorrem em locais com população de baixa renda, com uma população canina e felina em crescimento populacional desordenado e em baixas condições de saúde. O ideal é que haja um representante da comunidade, pessoa respeitada por todos e com acesso aos diversos segmentos desta população. Esta pessoa pode ser o responsável pelo cadastramento e difusão do conceito, ou seja, a porta de entrada. Este líder comunitário geralmente tem uma idéia do volume de animais ou pode apresentar um censo em um tempo pré determinado.

2. Estabelecer um objetivo

Uma vez conhecido o número aproximado de animais, é necessário estabelecer um objetivo a curto, médio e longo prazo. Para um controle populacional eficiente, um alto número de animais deverá ser castrado em um espaço curto de tempo. Há dados disponíveis na OMS e em vários sites, onde se preconiza que pelo menos 30% da população deve ser castrada em menos de um ano, ou seja, dois ciclos reprodutivos da cadela, para que se consiga pelo menos estabilizar o crescimento. Em seguida, um processo mais lento pode dar continuidade até o controle populacional definitivo, o que na verdade é uma utopia pois novos indivíduos serão sempre introduzidos de comunidades vizinhas ou por pessoas que não aderiram ao processo e permitem que seus animais se reproduzam. Estabelecer um objetivo é importante para não se criar falsas expectativas, contudo, cada castração realizada com sucesso já deve ser considerada um vitória pelo valor do indivíduo. Cada cadela ou gata castrada deixará de sofrer com a gravidez e a dificuldade em criar os filhos.

3. Sobre o planejamento dos custos

É uma questão crucial, senão a mais difícil. O custo de medicamentos em si, para uma castração é geralmente baixo, mas os custos adicionais são mais altos. Ao se estabelecer um objetivo numérico de castrações, deve –se ter a previsão dos custos antes do começo da ação para que não se crie falsa expectativa na comunidade e o processo não seja interrompido. A verba deve ser prevista para um tempo maior e recomenda-se começar com um número pequeno de indivíduos para se criar experiência na logística. No procedimento básico devem ser computados os custos da mão de obra dos cirurgiões, medicamentos de uso imediato como anestésicos, analgésicos, soro, anti-inflamatórios, transporte para a equipe e para os cães e gatos e medicações que serão distribuídas para o pós- operatório. Há também que se decidir sobre os materiais duráveis como o instrumental cirúrgico e sua esterilização, mesas de cirurgia e materiais de consumo como aventais, luvas e compressas cirúrgicas por exemplo. O desejável é que haja na equipe, pessoas que se ocupem da captação de recursos junto a laboratórios e empresas que desejem fazer doações e fazer parte de projetos bem delineados e consistentes.

4. Sobre a escolha do local para as atividades

Muitos locais onde são realizadas as cirurgias na verdade não correspondem ao preconizado pelos Conselhos de Medicina Veterinária. Por vezes se improvisa um centro cirúrgico em um local totalmente azulejado cujas paredes podem ser lavadas e que não disponha de móveis senão os estritamente necessários. Muitos projetos de sucesso têm parceria com clínicas veterinárias próximas que disponibilizam seus centros cirúrgicos em determinados momentos, o que é o ideal. Um local inadequado pode trazer problemas como infecções no pós- operatório e mesmo óbitos, o que além do dano irreparável da perda de uma vida, desestimula a população na continuidade do processo e cria um conceito negativo. É altamente recomendável que o Conselho de Medicina Veterinária local seja comunicado oficialmente e o processo seja apresentado detalhadamente antes do começo das atividades, pois podem haver questões jurídicas envolvidas. Além do centro cirúrgico, dois outros ambientes são necessários : uma ante sala onde os animais são sedados e é um ambiente contaminado com fezes e pelos e um outro local onde os recém operados retornam calmamente da anestesia antes de receberem alta para suas casas.

5. Sobre a capacitação técnica dos envolvidos

O procedimento cirúrgico é um processo para o qual o veterinário deve estar altamente preparado. Não é admissível que haja estudantes ou mesmo médicos com pouca experiência participando do ato cirúrgico. Uma cadela candidata à cirurgia deveria ter exames pré operatórios como exames de sangue e eletrocardiograma, o que não é viável em processos de castração em massa e que torna o processo muito mais arriscado em termos de complicações e óbitos. Um veterinário experiente realiza uma castração em dez ou quinze minutos, enquanto um inexperiente pode demandar até duas horas, o que aumenta os riscos em todos os sentidos. Um programa de castração não admite estudantes em treinamento ou profissionais que desejam adquirir prática. Um veterinário com muita experiência pode coordenar uma equipe de auxiliares com menos vivência na aplicação dos medicamentos e no preparo dos pacientes, mas será o responsável técnico por tudo o que acontecer. Se a equipe não está bem preparada não comece as atividades.

6. Sobre a organização da equipe de apoio

A equipe da apoio é composta por voluntários que buscarão os animais E SEUS TUTORES na residência, aguardarão todo o procedimento e retornarão com os animais. O ideal é um veículo com dois voluntários para o transporte de cada animal e seu tutor. Estes voluntários estarão treinados para esclarecer dúvidas sobre o processo e sobre a medicação a ser administrada. Na receita deve constar um número de telefone celular disponível 24 horas para que o tutor possa contatar no caso de problemas como secreções e infecções no pós- operatório, reações aos medicamentos e necessidade de transporte para um local adequado caso o animal se sinta mal nos dias seguintes à cirurgia. No local do procedimento deve haver um voluntário que receberá o tutor e seu animal, fará o cadastramento e providenciará a assinatura das documentações necessárias, pois o tutor deve estar ciente de todos os riscos envolvidos. A seguir, um veterinário experiente fará um exame clínico detalhado no candidato à cirurgia, que poderá ser realizada ou não de acordo com as condições clínicas. O tutor deve esperar todo o procedimento, acompanhar o retorno anestésico e ter seu transporte garantido na volta. Muitas pessoas chegam com seus animais caminhando mas não devem voltar da mesma forma. Internamente há funções bem estabelecidas, quanto ao preparo e depilação,limpeza dos locais, anestesia e castração, retorno anestésico e apoio no retorno à casa.

7. Sobre as documentações sugeridas

Todo o projeto da campanha de castração deve estar documentado detalhadamente, passo a passo, com a distribuição das funções. Um termo de autorização para o procedimento, individual, constando todos os dados do tutor e do animal deverá ser assinado. Caso o tutor seja analfabeto ou incapacitado da leitura, o termo deverá ser lido na presença de testemunha e assinado com impressão digital. Todos os envolvidos devem assinar seus termos de compromisso com as responsabilidades detalhadas, inclusive o veterinário responsável.

8. Sobre os cuidados no pós cirúrgico

A responsabilidade sobre o processo termina em sua maior parte na retirada dos pontos cirúrgicos aos sete dias. Neste período o animal terá total assistência prevista no projeto, inclusive internação em clínica veterinária caso haja complicações na cirurgia. Estes custos eventuais, que podem ser altos, devem estar previstos.

9. Sobre a interação da equipe

Pelo exposto acima, a interação da equipe é fundamental e muitas reuniões são necessárias, antes, durante a após cada ação, quando todas as dificuldades são colocadas e as soluções discutidas conjuntamente. O aconselhável é que projetos de castração comecem bem pequenos, para que a equipe se fortaleça e adquira experiência para projetos mais ousados.


Fonte: Olhar Animal

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