sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Proibições à venda de animais domésticos acendem debate sobre indústria dos pets


Em outubro do ano passado, ativistas invadiram o Instituto Royal, em São Roque (SP), para salvar beagles de um cenário de “pesadelo”, segundo se relatou. Foi lenha no debate cada vez mais aceso sobre o bem-estar dos bichos, que agora, em Miami, se volta ao comércio de animais domésticos. Na semana passada, comissários aprovaram uma moratória de seis meses para decidir se a venda deve ser banida, o que somaria Miami a outras mais de 30 cidades americanas com legislação semelhante.

Países como a Áustria e a Suíça também cortaram as asas das lojas. Em junho, o governo espanhol ensaiou resolução nesse sentido, e os vereadores de Fortaleza, aqui mesmo, no Brasil, seguem avaliando a proibição do comércio de cães, gatos e outros animais domésticos em pet shops.

ONGs brasileiras vêm bolando projetos de lei e recolhendo assinaturas para atacar o que as entidades veem como um problema. A proibição do comércio é encarada como um primeiro passo em uma perspectiva mais ampla, integrada também à Declaração de Cambridge, assinada em 2012 por diversos cientistas que atestaram que os animais têm consciência.

— Os animais não existem para o proveito do ser humano, eles têm os seus próprios propósitos. Não são propriedade nem mercadoria. A questão tem menos a ver com o animal ser bem tratado. As discussões costumam ficar em torno disso, mas o principal é que o animal não existe para o uso — diz Lydvar Schulz, coordenador do grupo de libertação animal Onca.

Por outro lado, o cão só virou o que é hoje porque deixou de ser lobo ao se associar com o homem e descobrir um laço favorável que o protegia dos perigos e urgências da cadeia alimentar. A solução, então, não seria abandonar os animais a uma natureza idealizada:

— Estamos contra a domesticação porque ela é uma violência, um eufemismo para subjugação. Mas não somos contra a pessoa manter em casa um cachorro, um gato, desde que tenha consciência de que eles não estão ao serviço do homem. A adoção consciente ajuda a mitigar o prejuízo. Não precisa comprar. Sempre vai ter como adotar — completa Schulz.

Ao contrário do que se poderia pensar, as lojas não se opõem à adoção.

— A pet shop lucra tanto com a venda quanto com a adoção. O cachorro adotado consome ração, toma banho. Boa base do orçamento, é claro, vem da venda, mas a pet shop, em principio, é a favor da adoção — diz Glaziete Pinto, vice-presidente da Associação Gaúcha de Pet Shops (Agapet).

Glaziete ressalta que as lojas não são responsáveis por quaisquer maus tratos que os animais sofram:

— A pet shop tem veterinário, tem vistoria. O problema é o canil. A proibição não adianta nada. É preciso fiscalizar. Não estamos nos anos 1970, mas em 2014. Proibição é ditadura, sou completamente contra. Se isso acontecer, vão fazer venda clandestina dentro de casa fechada, em box de banheiro. Tem que ter venda correta, com fiscalização pelo Conselho de Medicina Veterinária — defende Glaziete, acrescentando que, assim, o animal será bem cuidado do canil até o consumidor final.

Os ativistas alegam que a prática de obrigar que cachorras passem os dias confinadas e sejam submetidas a cruzas forçadas e a manipulação genética das espécies – geradora, por vezes, de bichos adoentados, com problemas respiratórios e tumores sempre prontos para aparecer – seria a consequência de tratar o bicho como mercadoria, o que supõe um modo de produção industrial.

— Por trás do comércio existe a fabricação de raças. E os mesmos laboratórios que manipulam a genética vendem os remédios. A pet shop não ganha apenas com a venda do animal ou o banho e tosa, mas também com os remédios — afirma Schulz.

Apesar de ser a favor da manutenção da venda pelas lojas, Glaziete concorda que a experimentação genética merece passar por debate. E, sobre a garantia de que não haverá maus tratos, acrescenta:

— Às vezes nem a pet shop sabe o que acontece com os animais no canil. Se o consumidor fiscalizasse, ele seria o melhor fiscal do mundo.

Fonte: ZH

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