sexta-feira, 1 de setembro de 2017

"Um dia será feio dizer que se mata animais para comer", diz professor norte-americano em Caxias do Sul



O tratamento de animais como objetos de consumo, e as implicações e consequências desta prática para o meio ambiente, serão o assunto da palestra do norte-americano David Cassuto, nesta sexta, na Universidade de Caxias do Sul (UCS). Professor de direito ambiental da Pace Law School (Nova York) e da Williams College (Massachussets), ambas nos Estados Unidos, Cassuto também é diretor do Instituto Brasil-EUA de Direito e Meio Ambiente e conselheiro da Animal Legal Defense Fund (ALDF). Especialista reconhecido, pretende levantar um debate sobre os aspectos éticos, bioéticos e socioambientais da proteção dos animais.

Cassuto está em Caxias pela segunda vez e falou com o Pioneiro ontem sobre o encontro na UCS, que faz parte da programação de abertura do curso de doutorado em Direito.
Confira trechos da entrevista:

Pioneiro: O senhor vem para falar sobre direito dos animais. Por que esse assunto está cada vez mais em alta?
David Cassuto: Pelo fato de que as pessoas estão dando mais valor aos bichos. Parece que estamos entendendo, de uma vez por todas, que indivíduos não são somente humanos, são animais também. E os indivíduos, todos, têm direitos.

Estamos em 2017 e ainda há bilhões de animais escravizados pela indústria. Em um artigo, o senhor, ao falar sobre os motivos pelos quais os humanos seguem comendo e usando animais, cita uma "profunda esquizofrenia moral"...
É isso mesmo. Há poucos dias morreu o meu cachorro. Ele era parte da minha família, era como um filho. Qual a diferença dele para os outros animais, aqueles que comemos, usamos animais em laboratório ou como máquinas? Não faz sentido pensarmos que um é diferente do outro, é loucura.

Movimentos que cultuam e reivindicam a redução do consumo de carne estão cada vez com mais força, mas ainda não são suficientes para conscientizar a população, não é?
A indústria alimentícia ainda tem muito mais força. Os grupos de vegetarianos e veganos são um caminho, uma força para que a conscientização não pare de crescer. Eles são o exemplo de pessoas que pensam nas implicações das ações tomadas na vida. O processo de comer tem inúmeras implicações e consequências, muitas delas ruins. Comer animais, por exemplo, implica em questões ambientais, mas pouca gente se dá conta disso. A maneira como os bichos são criados para a produção de alimentos desequilibra o meio ambiente. Bilhões, trilhões de animais são abatidos por ano no mundo, o que gera uma quantidade muito grande de resíduos.

Mas existe a possibilidade de, algum dia, animais não serem mais usados como alimento? O senhor vê uma mudança de comportamento a médio ou curto prazo?
É muito difícil, infelizmente. Trata-se de questões culturais que estão enraizadas: são aspectos econômicos, legais, sociais. Porém, não dá para desistir diante da dificuldade. Hoje já está diferente do que há 10 anos. Daqui 10 anos, espero, estará diferente e muito melhor do que está agora. Não acho que é preciso fazer mudanças radicais. Precisamos nos reconectar à ideia de que não podemos insistir em um sistema que afete o meio ambiente e, consequentemente, a nossa saúde.

O número de pessoas que não comem carne não diminui consideravelmente...
Falta consciência, buscar informação. Tenho certeza de que se mais pessoas enxergassem os olhos de um animal que será abatido para virar comida, esse número diminuiria. Aguardo para viver em uma época em que será feio e vergonhoso dizer que se mata um animal para comer.

O senhor viaja o mundo para falar sobre direitos dos animais. Existe alguma região mais avançada em termos de conscientização?
Infelizmente, não. No entanto, vejo avanços importantes, como é o caso da China. Lá eles têm o costume de comer carne de cachorro e agora parece que estão pensando mais na vida dos animais. Há um movimento para criar leis para proteger os bichos.

E como o senhor enxerga o Brasil nesse cenário?
Aqui tenho a impressão que todos, ou a maioria, são muito apegados aos animais, principalmente os domésticos. Isso faz com que existam mais pessoas sensibilizadas. Porém, aqui ainda há a farra do boi e outros movimentos culturais que instigam a crueldade. Ou seja: ainda é preciso falar muito sobre o assunto.

Fonte: ZH

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