segunda-feira, 4 de março de 2019

A cruel realidade dos Zoológicos

Um tema que sempre gera discussão é a questão dos parques zoológicos. Segundo o ICMBio, atualmente o Brasil tem cerca de 75 mil animais encarcerados em zoológicos. Muitos criticam esses locais por aprisionar e explorar animais, enquanto outros defendem por ser mais um meio de proteger espécies. Acontece que essa defesa não se sustenta. Zoológicos são problemáticos não só no Brasil, mas no mundo todo. Temos relatos de crueldades e até de depressão de animais em zoológicos da Alemanha, China, Argentina, Estados Unidos....

Aqui no Brasil, um dos casos de maior repercussão foi o de um elefante ferido  em um zoológico de Brasília, em 2015, em que um funcionário do zoológico teria confessado a um visitante que não havia funcionários suficientes para cuidar do animal (veja aqui). Após a repercussão negativa, funcionários e estagiários do local lotaram as redes sociais atacando o denunciante, o acusando de querer atenção, pois os animais eram bem tratados (veja aqui). 















Quando membros da Comissão de Bem estar Animal da OAB/DF visitou o zoológico, encontrou diversas irregularidades como medicamentos e alimentos vencidos que eram fornecidos aos animais (veja aqui). Estranhamente, os militantes que tanto defendiam o zoológico ficaram quietos.

Esse foi só um exemplo do que acontece nos zoológicos brasileiros. Além desse, podemos encontrar diversos outros casos. No zoológico de Sapucaia/RS até alguns anos atrás, os leões eram alimentados com coelhos vivos que eram criados justamente para esse fim (veja aqui). Uma das desculpas era manter a aptidão de caça dos predadores, mesmo eles vivendo entre paredes de concreto.

Esses são apenas dois exemplos de casos que não se encaixam em cuidados com animais que não teriam condições de voltar à natureza. Também não parecem com preservação de alguma espécie em extinção. Essas são as duas desculpas mais utilizadas por quem defende zoológicos. Aliás, o mais fácil é encontrarmos casos que são exatamente o oposto disso, com zoológicos matando animais como forma de atração e até para remediar alguma falha deles mesmos. Esse foi o caso do filhote de urso assassinado num zoológico suíço com a desculpa de que era para evitar que o pai o maltratasse, sendo que na natureza as mães criam os filhotes longe dos machos, mas o zoológico manteve todos no mesmo recinto (veja aqui). Também foi o caso de uma girafa assassinada por um zoológico dinamarquês para evitar consanguinidade (veja aqui) e ainda fizeram desse assassinato um "espetáculo" para o público.  Cerca de dois anos depois, esse mesmo zoológico assassinou 4 leões saudáveis com a desculpa de evitar disputas por território com um leão recém chegado que seria o novo reprodutor (veja aqui). Nem preciso comentar sobre o famoso Zoológico de Luján que é acusado de dopar os animais para que os visitantes possam fazer selfies, inclusive filhotes (veja aqui). 














Seguem observações feitas por um visitante do Zoológico de Luján (relato completo aqui):
"A ideia de interagir com os animais parecia ótima no início do passeio e foi ser tornando muito desconfortável até a hora da partida. Se você está pretendendo visitar este zoológico na Argentina, considere estes pontos:
- Os animais não parecem bem cuidados e vivem em jaulas muito pequenas.
- Mesmo os filhotes, que não tomam o “leitinho”, são “usados” até a exaustão. Quando um está muito estressado para tirar fotos no colo de um turista é deixado de lado e outro assume seu lugar.
- O mesmo ocorre para o camelo, que serve de montaria para a maioria dos visitantes.
- Coincidência ou não, os animais que parecem sofrer menos são aqueles que não possuem contato com humanos. Como os leões marinhos e os antílopes.
- Mesmo os argentinos não parecem ter orgulho do lugar. Desde que voltei, conversei com 2 hermanos que tem opiniões totalmente contra o zoológico."

Outro ponto relevante é que o cativeiro por si só já reduz a expectativa de vida dos animais. Elefantes asiáticos, por exemplo, podem alcançar os 75 anos de idade na natureza, mas em zoológicos muitas vezes não chegam aos 40 anos. A diferença é gritante. Já os elefantes africanos podem atingir quase 60 anos na natureza e menos de 20 anos em cativeiro (veja aqui). Até porque não precisa ser muito experto para imaginar que manter um urso polar no calor de 32ºC, como fez o Bronx Zoo em Nova York, irá mata-lo (veja aqui).

Apesar de tudo isso, ainda tem humanos que defendem zoológicos, pois muitos animais regatados de circos e do tráfico de animais acabam sendo levados aos zoos, já que não teriam mais condições de serem soltos na natureza. Esse é o caso, por exemplo, do elefante ferido do zoológico de Brasília que citei acima. O elefante e outros animais haviam sido resgatados do LeCirque pelo Ibama que  acionou a polícia, encaminhou a denúncia ao Ministério Público e encaminhou os animais ao Zoológico de Brasília. Cuidaram bem dele, né? Aliás, animais oriundos de resgate são minoria nos zoológicos e, como se não bastasse, esses locais sequer se preocupam em garantir a segurança deles, tendo em vista que são comuns os casos de animais que simplesmente desaparecem de dentro dos zoológicos. Somente entre os anos de 2005 e 2010, mais de cem animais desapareceram do Zoológico de Guarulhos e a polícia suspeita de quadrilha de tráfico de animais (veja aqui). Mas não era o zoológico que ia cuidar deles? Também em 2010 a polícia registrou o sumiço de mais de 120 animais do Zoológico de Goiânia e o diretor da instituição foi acusado de omissão (veja aqui). Os casos mais recentes que tomei conhecimento ocorreram em 2017 e envolvem o sumiço de aves, inclusive de ovos, do Zoológico de São Paulo (veja aqui) e o sumiço de répteis do Zoológico de Goiânia (veja aqui). Aliás, algumas vezes os próprios funcionários do Zoológico do Rio de Janeiro tiveram problemas com a polícia em razão do desaparecimento de animais. A polícia chegou a encontrar animais até na casa de alguns dos funcionários (veja aqui e veja aqui). 

Existe algo bem mais apropriado a esses animais que são os santuários. Os santuários são locais protegidos que recebem os animais sem explorar eles. Não reproduz animais, não joga animais vivos em jaulas de predadores, não troca animais com outros santuários como se fossem objetos, não faz shows ou qualquer outro tipo de apresentação com os animais.... Isso sim é cuidar dos animais sem explorar. Até mesmo a estrutura dos santuários é pensada para fornecer aos animais uma vida melhor do que nos zoológicos, com espaços maiores e enriquecimento ambiental, como o local que foi levada a ursa Marsha que foi resgatada de um zoológico pelo Instituto Luisa Mell (veja aqui). Infelizmente os santuários ainda são poucos. Na verdade, infelizmente precisamos de mais santuários. Conheço cerca de meia dúzia apenas de santuários em todo o Brasil:
Em SP temos o Rancho dos Gnomos, o Projeto GAP (que tem uma unidade no Paraná também), Animal Sente e o Santuário Terra dos Bichos. Nos outros estados temos o Santuário das Fadas no RJ, o Voz Animal no RS e o Santuário de Elefantes no MT. Pena que a falta de interesse por parte dos nossos governantes em relação aos santuários faz com que eles ainda sejam poucos e não recebem nem uma parcela da verba recebida pelos zoológicos. Sequer contam com legislação que os contemple. O site The Dodo chegou a listar coisas comuns em zoológicos que não encontramos nos santuários: 
Animais dos santuários Rancho dos Gnomos,
Projeto GAP e Santuário das Fadas.
- reprodução animal: não faria sentido um santuário reproduzir animais para viverem fora da natureza. A reprodução de animais silvestres normalmente está acompanhada do tráfico de animais. Ainda assim é possível um santuário ter filhotes, pois eles podem ter sido resgatados ou a mãe foi resgatada grávida.
- animais adestrados para fazerem truques, coisas engraçadas ou bonitinhas: a função dos santuários é justamente permitir que os animais vivam o mais próximo possível de como viveriam na natureza. Isso inclui deixar a critério deles escolher como querem interagir com os humanos, se querem interagir com os humanos ou não.
- animais em espaços insuficientes: apesar dos zoológicos jurarem que mantém os animais em espaços suficientes, muitas vezes é só questão de bom senso para ver que isso não é verdade. 
- interação com os tratadores: é lindo e chega a ser reconfortante ver uma ovelha resgatada sendo aconchegada. Não há nada de mal nisso. Mas deve haver um limite na interação com animais selvagens ferozes, como leões e tigres, e esse limite é o da natureza. Lembrem que a ideia do santuário é justamente permitir que esses animais vivam o mais próximo possível de como viveriam na natureza. Além do perigo que isso representa para o humano.
- animais silvestres sendo acariciados: o motivo é simples, muitas vezes os zoológicos arrancam os filhotes de suas mães para que eles sejam acostumados desde pequenos a serem acariciados por visitantes ou dopam todo mundo, mãe e filhotes. Definitivamente não é uma atitude que esperamos de um santuário.
O The Dodo ainda ressalta que o mais importante é que os animais estejam felizes e para isso é preciso analisar com calma se as necessidades físicas e psicológicas desses animais estão sendo atendidas. Apesar disso, é importante atentar aos pontos citados pelo The Dodo, pois pesquisando na internet encontramos alguns santuários menos conhecidos e a tendencia é que surjam mais, por isso é bom estarmos sempre atentos.

Sempre que vejo alguém defendendo de forma ferrenha um zoológico, meu desejo é que ela dedicasse a mesma energia para apoiar santuários. Se todos os adoradores de zoológicos reconhecessem que santuários são melhores para os animais, certamente já teríamos mais santuários e mais animais bem cuidados e protegidos. Mas, estranhamente, essas pessoas que dizem se importar tanto com os animais parecem gostar de ver eles entre paredes de concreto, jaulas, servindo com objetos de exposição em espaços inapropriados desde que agradando aos olhos humanos. 

Depois de tudo isso, ainda devo citar o 'zoochosis', que talvez alguns ainda não tenham ouvido falar. Em 1992 Bill Travers usou esse termo para se referir aos animais que viviam em zoológicos. Segundo o One Green Planet, hoje em dia esse termo é usado para se referir aos animais que apresentam comportamento anormal em razão de viverem em zoológicos, circos ou laboratórios. Esses comportamentos incluem:

                           Caminhadas repetitivas em círculos ou para frente e para trás

                             Morder e/ou lamber paredes e grades

                             Balançar a cabeça

                             Regurgitação
                         Muitos primatas regurgitam o alimento para, em seguida, comer novamente (vídeo com cenas explícitas)

                             Automutilação e limpeza excessiva
                        Esse comportamento normalmente é visto em animais mantidos em cativeiro isolado/solitário

                             Depressão
                      É só jogar no Google "urso mais triste do mundo" que aparecerão diversas notícias ao redor do mundo. Diversos ursos já ficaram conhecidos pela tristeza. 


E como as autoridades podem resolver isso? De diversas formas, mas com certeza a transferência dos animais à santuários sempre estará incluída. Posso citar dois exemplos: 
1- Em Porto Alegre/RS o parque Redenção que possuía um minizoológico e em 2011 foi levantada a polêmica sobre o encerramento do minizoo e a transferência daqueles animais para um local mais apropriado. O local onde ficavam os animais não tinha iluminação adequada, tinha excesso barulho, poluição e estava sofrendo com ações de vândalos que frequentam o parque principalmente a noite, já que o parque é aberto. Quando uma equipe de televisão fazia reportagens sobre o tema, sempre entrevistava um pai com uma criança no colo lamentando que a criança gostava do minizoo, que o minizoo é importante para as crianças conhecerem os animais... Até o representante do Conselho dos Usuários do Parque se manifestou pela permanência do minizoo, alegando o retorno dos impostos que ele paga. Imagino que para ele o bem estar dos animais é o que menos importava ali. Felizmente, diversos ativistas e ongs brigaram para que aqueles animais fossem para um lugar melhor. O bem prevaleceu e os animais foram transferidos para um criadouro.
Animais no extinto mini zoo. Pelas fotos é possível ver o quanto o local era precário.

2- Em 2016 o prefeito de Montevidéu, no Uruguai, anunciou que o Zoológico de Villa Dolores iria encerrar as atividades como zoológico para se tornar um parque público. O Zoológico de Villa Dolores já havia enfrentado diversas denúncias devido às más condições dos animais, por isso a ideia era de que os animais não fossem enviados para outros zoológicos. Os animais considerados exóticos e os considerados fáceis de remover, como babuínos, hienas e cangurus,  foram encaminhados ao Parque Lecocq, uma reserva natural. A ong Animales Sin Hogar, que participou das discussões desde o início, também recebeu algumas espécies. Alguns animais considerados de difícil remoção, como o tigre e o hipopótamo, ficarão no antigo zoo até o fim de suas vidas, porém em espaços bem maiores (veja aqui). O projeto ainda gera bastante polêmica no Uruguai, pois envolve a castração de espécies consideradas "de grande valor" (veja aqui).

E até lá o que podemos fazer? É simples, não ir à zoológicos e nem à nenhum outro lugar que explore animais. Esses lugares só existem porque as pessoas ainda insistem em ir.


***
Além dos links já inseridos no texto, também foram consultados os seguintes links:
http://www.projetogap.org.br/noticia/debate-sobre-animais-ameacados-de-extincao-expoe-crueldade-em-zoologicos/
https://anda.jusbrasil.com.br/noticias/370935446/veja-seis-fatos-que-denunciam-a-crueldade-animal-dos-zoologicos

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